terça-feira, 24 de março de 2009

Pequenas memórias - A briga.

Foto: Museu da Cidade de Nova York
Era quase noite, a pelada no campinho de terra em frente a casa onde moravam estava quase no fim, jogavam rebatida, a maioria dos meninos já haviam entrado para o banho, estavam ali os três irmãos, Marcos, André e Leandro e outros amigos, Eduardo e Gregórinho, além deles, também algumas meninas que torciam para um ou para outro time.
Marquinhos era o melhor em futebol, driblava e provacava os adversários, ria e todos se divertiam às custas do humilhado, mas era assim, coisa de criança. Quando um dos outros perdia a cabeça dava um pontapé e derrubava o bom-de-bola. O maior problema, era que o driblador não suportava ser driblado, não aceitava provocações e ficava furioso quando perdia. André não ligava muito, normalmente escolhia um time mais fraco, entende-se por mais fraco, aqueles garotos ruins de bola que ninguém escolhia e os garotos menores, não se importava em perder o jogo, queria mesmo era que todos participassem da brincadeira, ele mesmo sabia o quanto era duro ficar de fora, muitas vezes, sobrava ou acabava jogando no gol. Não gostava muito, pois queria era marcar gols e no fim das contas, mesmo que defendesse tudo, se tomasse um gol e o time viesse a perder, todos ralhavam com ele.
Nesta tarde, mesmo levando muitos dribles e com um time um pouco mais fraco, vencia o jogo, seu irmão Marquinhos estava irritado, primeiro porque perdia, segundo porque não conseguia irritá-lo, mas irritou um dos garotos menores, que em um dos dribles deu-lhe um chute na canela. Nervoso, Marquinhos pegou a bola atirou-a ao ar e em seguida a chutou em Gregório, acertando a face deste com força, o menino pequeno caiu batendo a cabeça no chão. Formou-se a confusão.
- Você é louco? Seu folgado. Pra que fazer isso com o muleque? Disse André indo pra cima Marquinhos, afinal Gregorinho era do seu time e era mesmo menor que todos alí.
- Ele me chutou, não sabe jogar bola, não aguenta levar drible. Defendeu-se o outro.
- E daí? É só pedir falta.
- Ah, não sabe jogar bola fica de fora.
Marquinhos disse isso empurrando André pelo rosto, este, reagiu ameaçando dar-lhe um soco, mas desistiu da idéia e virou as costas para olhar o amigo que estava ainda no chão, nem bem terminou de se virar e um soco foi desferido em suas costelas seguido da frase de agressor:
- Eu não ameaço, eu faço!
A roda para a briga se formou, André não era bom de briga, na verdade as detestava, mas não ia deixar passar aquela agressão. Tomou posição e observava cada movimento de seu irmão, não iniciaria nada até que alguém avisasse da briga lá em sua casa, desviou de dois socos com sucesso, o terceiro o acertou no braço, mantinha-se na defesa até ter o momento certo para acertar o nariz de seu oponente e acabar com a briga num único golpe, como fazia quando era impossível sair sem brigar.
Xingamentos e provocações de ambos os lados, até uma das meninas, a Helen, se aproximar e agarrar o braço de Marquinhos que se praparava para dar mais um soco, irritado por ter sido impedido de desferir o golpe, ele se virou e acertou a garota no olho. Isso foi demais para André.
- Vai seu covarde, batendo em mulher...
- Vou quebrar sua cara e você vai ver o covarde.
Mais um golpe, mais um desvio, só que desta vez o defensor girou o corpo projetando-se atrás do outro, aplicou-lhe uma gravata, apertando a cada vez que este tentava se soltar. André abaixou-se obrigando o outro a dobrar as pernas também e praticamente ficou fora do raio de ação das cotoveladas do irmão que gritava para soltá-lo.
- Me solta!
- Não, só se pedir água.
- Me solta, filho da puta!
- Vai xingar a nossa mãe agora é?
Do outro lado da rua, além da margem do campo, saiam sua tia, sua avó e sua irmã, que foi quem correra para avisar sobre a briga dos irmãos.
- O que está acontecendo aqui? Perguntou a avó.
Todos puseram-se a falar ao mesmo tempo, menos os dois que já estavam encrencados, o pai de Helen que chegava do serviço, veio ver o que ocorria e repreendeu a filha por se meter no meio de briga de moleques, ela, com o olho roxo, foi pra casa chorando, acalentada por sua irmã Erika.

A situação era a mesma, Marquinhos sem ar e agoniado pedia para que o soltasse, André não se dava por satisfeito exigia do irmão que pedisse água ou penico como alguns diziam.
- Solta ele. Foi a sentença da avó.
- Não, só se ele pedir água.
-Me soltaaa!!
- Não!
- Se você não soltar os dois vão apanhar aqui na rua. Adriana, vai pegar a palmatória pra mim agora. Ordenou a avó, ao pensar na palmatória André tremeu, sabia que ficaria com as mãos inchadas, mas não voltaria atrás.

- Me solta seu gay, a gente vai apanhar não tá vendo.
- Apanho, mas você também. Pede água.
- A decisão é de vocês, sua irmã vem vindo. Disse a tia
De fato a irmã já surgia no portão com a palmatória na mão e andando bem devagar como que tentando retardar a sentença.
- Àgua, àgua. Tá feliz? Agora me solta.

André soltou, estava feliz, vencera a luta sem dar um soco em seu adversário, mais que isso, o humilhou em frente a todos e isso era doce como mel. Ria-se sozinho de sua pequena maldade e via seu irmão irar-se sem nada poder fazer, isso lhe dava ainda mais prazer, pois iam os dois ficar de castigo por uma semana, outra briga seria fatal para ir à palmatória, e ninguém queria isso...

Uma semana depois, voltavam ao jogo no campinho.



PS: Existem maldades que só são perdoadas quando se é criança e que se não redirecionadas ha tempo, são carregadas para a vida adulta como parte de costumes aceitos e até louvados pelo sociedade, acredito que é exatamente por esta falta de direcionamento que encontramos comportamentos tão nocivos nos tempos atuais.
****
PS-2 A foto foi tirada do site da BBC que prestava homenagem a Stanley Kubrick, cineasta norte americano, com uma exposição de fotos. Muitas dessas fotografias, tiradas entre 1945 e 1950, nunca foram vistas pelo público. Esta de crianças brigando na rua faz parte do capítulo Vida Metropolitana, que mostra personagens anônimos em cenas cotidianas de Nova York e Chicago. Kubrick, que morreu em 1999, ficou conhecido como diretor por filmes como Laranja Mecânica, Spartacus e De Olhos Bem Fechados (seu último).

14 comentários:

Segunda impressão disse...

O bom de ser criança é que qualquer briga ou desentendimento dura até o momento de se fazer às pazes novamente.
Ótimo fim de semana!
Beijocas.

K-cau disse...

Criança não tem maldade. O problema é que algumas crianças continuam com os mesmos hábitos na fase adulta.
Bom fim de semana!

Beijos

garotabossanova disse...

Amei o texto.Muito doce.Me lembrou da época em que eu era criança tb.Tempo bom, apesar da vida humilde que eu tive.Um beijo grande moço, e bom fim de semana!

Philip Rangel disse...

Quando se é criança ela é sempre desculpada de seus atos.....e pode reaprender de novo...

abraçao meu amigo

Márcia(clarinha) disse...

Que moleque não brigou com irmão ou pela disputa de uma bola?
O bom de ser criança é que a briga machuca na hora e depois passa...já o adulto que carrega com ele rancores jamais se recupera.

Linda história Menino Mago, gostei muito
feliz final de semana
beijos

du disse...

.brigas são inevitáveis durante toda a vida mesmo. mas a forma com que lidamos com ela, essa sim, deveria evoluir conforme crescemos...

.abraços

Morena disse...

Aii ser criança é estar em um universo paralelo! td de lindo mesmo!!!
Beijos saltitantes

Marcos Pontes disse...

Tenho peso na consciência de um soco que dei quando criança e nunca tive a oportunidade de pedir desculpas.

Vaninha® disse...

Não li, confesso, mas me lembrei das brigas de criança...eta tempinho bom...rolar no chão, puxar cabelo...rsrsrsrs
Boa semana!!!!!!!!!!

Barbara disse...

Essas crianças tinham campinho, e podiam ser chamados de moleques.
Compare.
As pobres crianças de hoje, se pobres ou ricas, brigam através de video game, cada um mais violento que o outro, não são chamados de moleques e não têm umas tias, ou avós ou mães por perto, prá enchê las de porrada - vivem pelas ruas, ou em creches, ou sob a responsabilidade de terceiros - indiferentes em maioria.
Criança pobre tb joga essas coisas, na lan house ou em aparelhos comprados em 36 vezes.
Não tem infância hoje não.
Tem discrepância da infância, alimentados pela mídia e , infelizmente, levando as crianças a uma situação de solidão em crescimento, que não sabemos ou sabemos, estão como o suco da laranja mecânica.

Barbara disse...

Desculpe por ter generalizado.
Apenas olho em volta.

Barbara disse...

Ah! esqueci de contar.
Em criança, junto com meus primos, sapequei pixe morno no vestido de uma menina que estava a visitar minha avó.
Bater, socar, brigar mais feio do que isso, não lembro não.

Mariah disse...

meu tão carinhoso amigo...visitante solidário da minha tão abandonada casinha.
confesso que entre os meus defeitos mais graves (e prejudiciais a mim mesma principalmente) está o fato de, simplesmente ser incapaz de ler longos textos na tela do computador.
este fator, vergonhoso porém verdadeiro, não posso negar, está me levando a atitude, quase desesperada de imprimir todos os seus posts, mandar encaderná-los e colocar na cabeceira da minha cama para poder mastigá-los num final de semana preguiçoso.
confesso que sou incapaz de lê-los aqui...porém, numa vista d'olhos (uau...qua machadiano isso)...dá pra ver o quanto perco.
facilite minha vida. faça uma seleção...tipo "seleção do autor" e me mande por e mail....que tal?
tô exagerando?
tenho loucura por ler tudo de bom que sei que existe aqui...mas precisava te fazer essa confissão, ainda mais depois de tão carinhosos comentários que deixaste para mim.
encare como a súplica de uma já "quase fã"....além do mais somos praticamente visinhos.
beijinhos...bruxinho.
mariah

. fina flor . disse...

meniiiiiiiino, que luxo!!!

nossa, fiquei emocionada! tô tão dodói, hoje.... gripe... adorei o carinho, veio em boa hora.

vou conhecer as outras indicadas.

beijos e obrigada pelas palavras gentis

MM.